Prostitutas, mas não só: fotos inéditas mostram realidade do Centro de Salvador-BA

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Em cartaz a partir desta terça (9), ensaio inédito de Flávio Damm retrata prostitutas e seus espaços de atuação em Salvador

Quando a cantora americana Janis Joplin (1943-1970) esteve em Salvador, na década de 1970, causou burburinho ao entrar em um famoso bordel da Ladeira da Montanha. “Dizem que ela foi no Meia-Três e cantou com as putas. O Meia-Três era cheio de histórias”, lembra a arquiteta Silvana Olivieri, 47 anos, curadora da exposição gratuita Mulher-Dama, que apresenta um ensaio inédito do fotógrafo gaúcho Flávio Damm sobre prostitutas e seus espaços de atuação em Salvador.

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Em cartaz a partir desta terça (9), às 18h, no Museu da Cultura Afro-Brasileira (Muncab), no Centro, Mulher-Dama reúne 42 fotografias registradas entre janeiro e fevereiro de 1966, além de 52 imagens em projeção que resgatam o Meia-Três: famoso bordel que funcionava em um dos casarões demolidos na Ladeira da Montanha, em 2015. As fotos, originalmente feitas para um livro que Flávio publicaria com o amigo Jorge Amado (1912-2001), foram arquivadas na Ditadura Militar.

“Com o AI-5, o Jorge, comunista confesso, preferiu deixar aquilo para mais adiante. Aí o tempo diluiu, passou, esse golpe que eles fizeram continuou por mais algum tempo. Eu fui para um lado, o Jorge para outro e não nos encontramos mais, não por nenhum motivo, mas o livro morreu ali”, conta Flávio Damm, 89 anos, consagrado fotojornalista que recentemente foi homenageado na 13ª edição do Paraty em Foco, um dos principais festivais de fotografia da América Latina.

Hoje, 50 anos depois, o público de Salvador terá a oportunidade de conhecer as imagens inéditas que contam um pouco mais sobre a história da cidade. Especificamente sobre o universo das prostitutas que atuavam no Meia-Três, “o mais famoso bordel de Salvador, talvez da Bahia inteira”, nas palavras de Flávio, que funcionava na Ladeira da Montanha, número 63, gerido pela matriarca China e conhecido como “castelo”.

“Jorge me propôs fazermos um livro sobre o dia-a-dia das residentes. Teria o título de Mulher-Dama. Fotografei com desenvoltura, respeitei suas intimidades e me reservei ao modo de viver das moças, a hora do penteado, da maquilagem, do encantamento com a melhor roupa para ir para o salão onde um cantor fazia as vezes de Carlos Gardel”, lembra o fotógrafo que não participará de sua primeira exposição individual em Salvador, por conta das limitações físicas.

Prostitutas, mas não só isso

Além do Meia-Três, que fechou em meados da década de 70, pouco tempo depois da visita de Janis Joplin, Flávio também percorreu as ruas do bairro conhecido como Maciel. “As pessoas vão conhecer um bairro que desapareceu de Salvador. O que hoje se chama de Pelourinho, até os anos 90 era Maciel. Era um bairro que a polícia concentrava a prostituição, até os anos 90, quando acontece a famosa reforma do Pelourinho”, explica a arquiteta Silvana Olivieri.

Curadora da exposição, Silvana explica que os registros de Flávio retratam um universo que vai além do estigma da degradação. “Era um bairro com construções antigas, mas com muita vida. Banquinha de fruta e cotidiano como um bairro qualquer de Salvador. Prostitutas, mas não só isso. São faces que precisam ser reveladas, é uma oportunidade de ver esse bairro cheio de vida e se perguntar por que esse desapareceu”, provoca.

Durante uma pesquisa por espaços desaparecidos em Salvador foi que Silvana se deparou com o Meia-Três e as imagens de Flávio. “A perda me fez ir atrás dessas fotos do passado para tratar do presente”, destaca a curadora. “Seria um momento propício para discutir a questão da memória, para além da prostituição. Inclusive afetiva, não só do patrimônio arquitetônico, cultural. Como a gente atualiza esses espaços sem a destruição? Por que esses espaços com vitalidade e riqueza cotidiana única são marginalizados? Aquela área da Montanha é muito especial”, pontua.

 Imagens de Flávio Damm revelam cotidiano de prostitutas que atuavam na Ladeira da Montanha, no bordel Meia-Três

Silvana destaca que os castelos, como eram chamados os bordéis, cumpriam um papel importante na vida cultural e social da cidade. Afinal, eram espaços organizados como comunidades de mulheres, onde elas trabalhavam, moravam e criavam laços profundos de amizade. “O Meia-Três nunca foi fotografado. Isso ser guardado durante 50 anos é quase uma cápsula do tempo, quase um tesouro guardado. Fiquei emocionada quando vi. É uma oportunidade única”, reforça a curadora.

Fonte: http://www.correio24horas.com.br

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