Com assessoria financeira, mulheres põem as contas em dia e deixam a prostituição

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 Flávia Lopes tornou-se empresária após seis meses trabalhando como garota de programa (Foto: Adriano Oliveira/G1)

Administrador de site de acompanhantes em Ribeirão Preto (SP) desenvolveu cartilha para orientar jovens a organizar finanças para investir nos próprios sonhos.

Quando percebeu que o salário de vendedora não era suficiente para quitar todas as dívidas e que os trabalhos extras não cobriam nem mesmo os juros dos boletos, Flávia Lopes* conta que decidiu se tornar garota de programa para conseguir o dinheiro que precisava.

O trabalho duraria apenas o tempo necessário para colocar as contas em dia. Em seis meses, a jovem pagou as mensalidades atrasadas da faculdade e voltou a estudar. Com o cartão de crédito em dia, ainda trocou de carro e investiu em um negócio próprio.

“Foi um trabalho importante para reconstruir minha vida”, diz Flávia, destacando que só conseguiu tudo aquilo que planejou com o apoio e as orientações de um consultor: o publicitário Cláudio Rozante, dono do site de acompanhantes em que ela anunciava.

“Ele sempre dizia para eu não me deslumbrar com o dinheiro que ganharia. No início, eu tive medo, mas ele sempre estava por perto, perguntando se estava tudo bem, preocupado. Sempre que eu tive momentos de aflição, ele me ouvia, me ajudou muito”, diz.

É justamente em busca desse tipo de apoio que muitas jovens procuram por Rozante. A maioria delas, endividada ou sem condições de sustentar a família, quer trabalhar como acompanhante somente para colocar a “vida em ordem”.

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Flávia Lopes diz que apoio do consultor financeiro foi fundamental para quitar as dívidas (Foto: Adriano Oliveira/G1)

 

O publicitário diz que respeita a decisão das garotas, mas não deixa de alertá-las sobre os riscos da profissão. Quando é procurado por uma interessada em anunciar no site, sempre sugere alternativas para que elas consigam obter o dinheiro que precisam, sem ter que se prostituir.

“Eu sempre acredito que existe outro meio, outra forma de conseguir uma grana. Uma vez, apareceu uma fisioterapeuta e eu não deixei entrar no site. Eu a ajudei a fazer uns panfletos, ela começou a atender os moradores de um condomínio e conseguiu sair daquela situação”, afirma.

Quando percebe que não vai conseguir interferir na escolha das jovens, o publicitário passa então ao papel de consultor, propondo uma análise da vida financeira delas e estabelecendo, inclusive, por quanto tempo poderão anunciar na página.

“Rola muito a questão do deslumbramento e é por isso que eu não deixo entrarem. Eu costumo dizer que vira uma chavinha na cabeça delas e fazer programa acaba se tornando um meio fácil de conseguir dinheiro, e é isso que não quero que aconteça”, afirma.

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O publicitário Cláudio Rozante, administrador do site de acompanhantes (Foto: Adriano Oliveira/G1)

O contato de Rozante com a prostituição surgiu ainda na década de 1990, quando estudava fotografia e decidiu se aperfeiçoar em nu artístico. Acompanhado da namorada, ele percorria as ruas de Ribeirão Preto (SP), em busca de garotas de programa que permitissem ser fotografadas.

“Nessa jornada, comecei a me sensibilizar porque vi muita coisa errada. Eu vi crianças de 10, 12 anos, envolvidas com prostituição. Isso me chocou muito, sem contar brigas que presenciei, e havia meninas que eu conhecia e ficava muito mexido em vê-las naquela condição”, conta.

A ideia de lançar o site de acompanhantes veio quando foi procurado por uma jovem que trabalhava em uma “casa de massagem” na região central da cidade. A garota pediu que ele criasse um site para ela divulgar o trabalho como garota de programa.

“O site tirou essa garota da clínica, onde ela era maltratada e trabalhava praticamente para os outros. Ela se tornou autônoma e, aos poucos, mudou de vida. Então, eu percebi que dava para ajudar essas garotas de alguma forma”, relembra.

apostila1O publicitário Cláudio Rozande desenvolveu um manual de organização de finanças para as garotas de programa (Foto: Reprodução)

 

Após a criação da primeira página, Rozante passou a ser procurado por outras garotas de programa, sempre com o mesmo pedido. Ele decidiu então reunir todo o material em um portal: era o primeiro passo para o trabalho que desenvolve hoje.

“Tudo foi acontecendo naturalmente porque, como elas me procuravam com certa abertura, eu acabava ajudando. Por causa das coisas que eu havia presenciado, sabia que tinha que tratá-las de outra forma. Eu vi coisas que não queria que se repetissem”, afirma.

Planejamento financeiro

Mas, o diferencial do trabalho é, sem dúvida, a assessoria financeira. O publicitário criou uma apostila de controle de gastos, onde as acompanhantes podem calcular quantos clientes precisam atender, e por quanto tempo, para quitar as dívidas ou alcançar as metas propostas.

Nesse material constam tabelas que devem ser preenchidas com os valores dos gastos fixos, como aluguel e energia elétrica, os gastos variáveis, como alimentação e baladas, e ainda os custos com projetos futuros. O valor é dividido pelo número de meses que a garota se dispõe a trabalhar para conquistar o que almeja.

Rozante deixa claro que o trabalho de consultoria financeira não tem nenhum custo. Além disso, o publicitário afirma que também não interfere na relação da acompanhante com os clientes e não cobra nenhum tipo de porcentagem sobre os programas.

“Eu cobro apenas para divulgar o trabalho delas, fazer boas fotos, escrever um texto bacana, esse é o meu papel. Ela vai trabalhar por conta. O que ela ganha é dela. Elas vão estar em um lugar top, onde as meninas de ‘book rosa’ estão, mas são elas que mandam no trabalho delas. Não tem essa de ficar com parte do dinheiro”, esclarece.

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A servidora pública Fernanda Pires trabalhou por um ano como garota de programa (Foto: Adriano Oliveira/G1)

E foi justamente em busca dessa autonomia financeira que a servidora pública Fernanda Pires*, de 30 anos, decidiu se tornar acompanhante. Concursada, ela atendia os clientes nos horários de folga. Em um ano, com a assessoria do publicitário, conquistou o que havia planejado.

“O meu salário não é alto e eu queria melhorar minhas condições. A gente não entra com a intenção de ficar por muito tempo, como acontece com muitas meninas. A gente tem uma profissão e não quer que as pessoas descubram”, afirma.

Fernanda diz que o cuidado do publicitário com as jovens se reflete no próprio site: os textos são produzidos por ele, assim como a maioria das fotos, que não expõem as partes íntimas das anunciantes e tem um tratamento especial para que não fiquem vulgarizadas.

“Não sou uma prostituta, pelo menos não me vejo assim, foi uma questão de necessidade. Então, dessa forma é diferente. Já conheci muitos caras na balada que não me trataram tão bem, com tanta cortesia e respeito, quanto meus clientes, que ainda estão me pagando”, afirma.

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Fernanda Pires diz que buscava autonomia financeira quando decidiu trabalhar como acompanhante (Foto: Adriano Oliveira/G1)

 

Campanhas educativas

O site de acompanhantes completa 10 anos em 2017. Nesse período, o trabalho de consultoria financeira expandiu. Rozante desenvolveu campanhas educativas, como a arrecadação de livros que são distribuídos às garotas de programa.

“Eu peço para os clientes doarem livros para as meninas. Daí, eu tiro foto dos livros que recebo e passo para elas por WhatsApp. Elas escolhem quais querem e eu entrego. Os livros são delas e elas ficam surpresas com esse tipo de tratamento”, afirma.

Em outubro, Rozante também muda layout da página para destacar o mês de combate ao câncer de mama. Ele chegou a produzir vídeos com as acompanhantes fazendo o autoexame. O material orienta os clientes a incentivarem suas mulheres e namoradas a fazerem o teste.

“O vídeo tem apelo para os caras assistirem, mas a intenção é levar as meninas a fazerem o autoexame durante a gravação. Eu usei tarjas nas imagens, para não deixar a campanha vulgar. Ficou muito sutil e tivemos um resultado bacana”, afirma.

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Apostila de organização financeira desenvolvida pelo publicitário Cláudio Rozante para as garotas de programa (Foto: Reprodução)

O publicitário diz que planeja expandir os negócios, abrindo franquias do site, que, atualmente, só atende a região de Ribeirão Preto. Entretanto, o projeto esbarra na dificuldade de encontrar pessoas que tenham o mesmo ideal e o respeito pelas anunciantes.

“Geralmente, as pessoas que me procuram não tem o perfil adequado. Quando eu digo que existe um lance social, que não entra foto vulgar, que é preciso respeitar as meninas, o cara pula fora. Infelizmente, ainda existe um preconceito de que site de acompanhante e prostituição é bagunça”, diz.

Exploração sexual

Coordenador da Comissão de Direitos Humanos da 12ª Subseção da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), Anderson Romão Polverel explica que a divulgação do trabalho das acompanhantes simplesmente não se enquadra em crime de exploração sexual.

“A exploração sexual só se constitui crime, falando de jovens maiores de idade, quando há algum tipo de lucro, ou seja, alguém agencia essas meninas em determinado local e obtém lucro com essa atividade delas”, afirma.

Polverel diz que, segundo os artigos 229 e 230 do Código Penal, é considerado crime de exploração sexual manter casa de prostituição, mesmo que não haja intuito de lucro, ou mesmo tirar proveito da prostituição das garotas de alguma forma.

“Na vida moderna, há outras formas de exploração sexual, não só quando se mantém uma casa em si. Então, quando o juiz analisa o caso concreto, vai adequar o Código Penal à evolução do nosso tempo”, afirma o advogado.

*Os nomes da reportagem foram modificados para preservar a identidade dos entrevistados

Fonte: (Por Adriano Oliveira ) G1 Globo

 

 

 

 

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