O Projeto Diálogos pela Liberdade – Unidade Oblata de Belo Horizonte – completa 37 anos!

As comemorações foram de muita alegria, partilha e esperança renovada!

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Equipe Diálogos pela Liberdade no aniversário de 37 anos de missão Oblata em BH

Cultivamos nossa memória em forma de relatos, fotos e documentos durante a semana que passou com muita gratidão pelas/ pelos que começaram essa bela obra em 1982. Naquele tempo, a prostituição de rua estava concentrada na região do bairro Lagoinha e foi lá que o nosso trabalho também começou, quando religiosas/os e leigas/os formaram uma equipe que visitava as mulheres nos pontos de prostituição, tomando conhecimento sobre a situação das que ali estavam em busca de seu sustento.

Espaço de atendimento às mulheres na Guaicurus, apelidado pelas mesmas de “Cantinho da Paz”

De 1982 para cá ocorreram muitas mudanças, como o local de acolhimento de nossas mulheres atendidas, agora na Guaicurus, por entendermos que devemos acompanhar as mulheres onde estiverem. Muitas/os aqui colocaram seu trabalho e esperança, entre religiosas/os, leigas/os e profissionais; e entretanto, o que não muda nunca é nosso esforço de caminhar junto das mulheres que exercem a prostituição, um processo de humanização daquelas a quem alcançamos, atingidas pela desigualdade social e de gênero, e também a nós mesmas/ os, enquanto não imunes a esta realidade, mas nos deixando interpelar por ela, em direção à ação concreta.

Como parte das comemorações, construímos na tarde do dia 29  a “Árvore-Diálogos”, com suas raízes sob o solo, que não estão visíveis para quem chega agora, mas continuam nos sustentando, assim como as ações das/os que começaram este trabalho. Como um tronco de uma planta, o Projeto seguiu crescendo e nossas ações se multiplicaram, como galhos que juntos formam uma copa frondosa. As folhas são os momentos vividos no Projeto, das mulheres acolhidas e nossos, o que nos move e mantém por aqui, e assim como numa árvore, contam gentilmente da presença da Vida!

Árvore-Diálogos construída com as mulheres na celebração do aniversário de 37 anos do Projeto Diálogos pela Liberdade

E, ainda em clima de comemoração de nosso aniversário, nos reunimos com os parceiros institucionais do Projeto no dia 04 de Setembro, em evento realizado em nossa sede e intitulado “Dialogando com Parceiros”, onde pudemos contar um pouco de nossa história e missão, além de estreitar os laços e traçar planos para continuarmos atendendo as mulheres cada vez melhor!

Aqui a equipe Diálogos pela Liberdade e diversos parceiros em dinâmica para reafirmar simbolicamente nossos laços institucionais em prol das mulheres

Celebramos e agradecemos a tantas e tantos que por aqui já passaram para contribuir nesta batalha pela justiça social, que já dura 37 anos!!!

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Formação sobre a Campanha da Fraternidade 2019

No marco da Campanha da Fraternidade 2019, no dia 16 de março se realizou um encontro na Paroquia São Francisco das Chagas – Carlos Prates – BH para refletir sobre o tema proposto pela CNBB para este ano: “FRATERNIDADE E POLÍTICAS PUBLICAS”. Lema: “Serás libertado pelo direito e pela justiça” (Is. 1,27)

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O jovem Ismael Dayber Oliveira Silva graduado em Gestão Pública e mestrando em Ciência Política pela Universidade Federal de Minas Gerais, proporcionou amplos elementos para entender o tema e compreender o alcance e necessidade da nossa atuação como cristãos neste contexto.

O encontro foi motivado por dom Joaquim Mol bispo auxiliar de Belo Horizonte quem encorajou aos participantes a assumir como cristãos católicos o compromisso de “participar cotidianamente para que os governantes atendam às necessidades da população, especialmente dos mais pobres”.

A Equipe do Diálogos pela Liberdade se fez presente levando o grito das mulheres “Basta de feminicídios. Queremos viver”.

 

#RedeOblata

Sensibilização no Centro de Assistência Social “Tecendo a vida”.

No dia 14 de março o Projeto Diálogos pela Liberdade – Rede Oblata em BH – esteve presente no Centro de Assistência Social “Tecendo a vida” no espaço de encontro do grupo “Mulheres renovadas”. Mas uma oportunidade de sensibilização diante da realidade das mulheres em situação de prostituição e somar forças na reivindicação dos direitos de todas as mulheres. O encontro finalizou com uma dança circular onde todas se uniram na força universal das mulheres na gestação e cuidado da Vida. Por uma vida mais humana!

“SOMOS MULHERES, QUEREMOS VIVER!”

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Unidade Oblata Diálogos pela Liberdade celebra o Dia Internacional da Mulher com festa e reivindicações pela vida e dignidade das mulheres do mundo.

 

60 mulheres passaram pelo Cantinho da Paz para celebrar seu dia. Dia de conquistas históricas, mas também de luta pela vida das MULHERES, principalmente no atual cenário de perda de direitos e aumento do feminicídio no Brasil.

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Com o tema: “A TERNURA DE DEUS TE FEZ MULHER”

Lemas: “Adoramos flores. Mas nada como respeito!”

“Somos mulheres! Queremos viver!”

 

 

MISSÃO OBLATA E ATUAÇÃO DO/A VOLUNTÁRIO/A

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Na tarde do dia 26/02/2019, encerrou com chave de ouro o Curso Intervenção Social na Prostituição e suas interfaces. Estiveram presentes 35 participantes, entre eles religiosos/as, leigos/as, representantes de parcerias do DpL, acadêmicos e professores universitários.

Segue o manual de voluntariado da Unidade Oblata Diálogos pela Liberdade – Rede Oblata BH – Brasil.

CARTILHA DO VOLUNTÁRIO/A – 2019

Apresentação

Nosso Projeto nasceu no ano de 1982, a partir de um grupo de pessoas que se sensibilizaram com a questão das mulheres que exercem a prostituição nos bairros da Lagoinha e Bonfim, região de acentuada concentração de prostíbulos.

Com o nome de Pastoral da Mulher de Belo Horizonte, o projeto coordenado pelo Instituto das Irmãs Oblatas do Santíssimo Redentor acompanhou o deslocamento do público atendido e passou a desenvolver seu trabalho no hipercentro de Belo Horizonte. Para ampliar seu alcance, expressar sua filosofia e modo de atuar, o projeto passou a se chamar Diálogos pela Liberdade, consolidando sua marca em 2016.

Atuamos de modo a criar meios de aproximação e sensibilização junto às mulheres que exercem a prostituição nas diferentes localidades do hipercentro de BH. A intenção é despertá-las para NOVOS OLHARES, que lhe proporcionem uma ANÁLISE CRÍTICA sobre suas condições de vida e de trabalho, para o seu próprio potencial de crescimento, para questões que envolvem a sua

realidade e o mundo, num processo de RESIGNIFICAÇÃO da sua história.

  1. O voluntário/a

É todo cidadão que, motivado pelos valores de participação e comprometimento, disponibiliza seu tempo, conhecimento e talento de maneira espontânea e não remunerada para causas sociais e de interesse comunitário.

Entende-se que a ação voluntariada vem a ser mais que uma ação de generosidade e doação. Ela significa uma abertura a novas experiências, oportunidade de aprender e compartilhar conhecimento.

O trabalho voluntário desempenhado junto às instituições sem fins lucrativos é regulamentado pela lei nº 9.608 e nº 13.297/2016.

  1. Compromisso

O trabalho voluntário deverá ser exercido com o mesmo cuidado e responsabilidade que qualquer outro trabalho. Questões importantes para ambos deverão ser colocadas, assim como todas as dúvidas e expectativas.

É importante que o voluntário/a se conscientize de que é imprescindível sua presença (as pessoas estarão esperando por ele/a), sua pontualidade (muitos trabalhos só podem ser exercidos em determinados horários) e sua responsabilidade.

Não importa o tempo de duração desse compromisso, o que realmente importa é que, enquanto durar, ele seja desenvolvido dentro das regras estabelecidas.

É de responsabilidade do voluntário/a manter seus dados atualizados (telefone, e-mail etc.).

  1. Orientações Institucionais

A unidade Diálogos pela Liberdade tem o compromisso de preservar, proteger e cuidar dos dados e imagens das mulheres que são atendidas pelo projeto. Por isso pedimos a todos os voluntários/as, parceiros, colaboradores e convidados que não tire fotos dentro da unidade. Caso seja necessário realizar algum registro, procure a coordenação.

Outro aspecto importante que pedimos atenção, é que caso seja necessário realizar qualquer contato telefônico com a mulher, o mesmo seja realizado pelo celular coorporativo.

  1. Nossa atuação está estruturada em três projetos:

4.1 Aproximação (Abordagem)

Consiste na realização de visitas aos locais nos quais as mulheres exercem a prostituição no hipercentro de BH.  Esta é uma ação que proporciona DIÁLOGO, informação, sensibilização, conhecimento da realidade, além de ser uma forma de convidá-las a participar das atividades oferecidas no Projeto Diálogos pela Liberdade.

4.2 Acolhida

É um dos traços da Rede Oblatas. Tem como objetivo melhorar a defesa dos direitos das mulheres em situação de prostituição, o acesso aos serviços socioassistenciais e contribuir para o resgate de sua cidadania, fortalecendo sua autoestima, ampliando seu conhecimento sobre as questões sociais, de gênero, saúde e trabalho.

4.3- Sensibilização/ Advocacy

O projeto de sensibilização visa ampliar o conhecimento do público, através das atividades promovidas pelas unidades e parceiros, para a desconstrução do estigma, sensibilizando a sociedade civil, o poder público e a academia sobre a realidade das mulheres que exercem a prostituição, criando condições na para o acesso e reconhecimento dos direitos.

A sensibilização ocorre principalmente por meio de palestras, seminários, workshops participação em Conselhos e articulação com entidades parceiras.

  1. Recomendações para Abordagem

5.1  Preparação Interior:

  • Esvaziar-se dos próprios problemas, pensamentos, juízos….
  • Tome consciência de que vamos entrar em “terra sagrada”, os rostos e corpos que encontraremos são moradas de Deus.
  • Entrar em contato com nossa Fonte de Vida, coloquediante de Deus nossos medos e preocupações, sentir-nos enviados por Ele.

5.2  Preparação “técnica” da visita:

  • Leitura dos relatórios de visitas anteriores;
  • Leitura dos instrumentos a serem distribuídos; apropriação das informações que serão comunicadas às mulheres;
  • Ter clareza sobre o que queremos comunicar na visita, como o faremos e quais aspectos serão o centro de nossa atenção;
  • Estar trajado com o colete que identifique o Projeto Diálogos Pela Liberdade;
  • Levar carteira de identidade, caderneta e caneta, assim como os instrumentos de comunicação.

5.3-Recomendações Durante a Visita

  • Cumprimentar e identificar-se, aos funcionários do hotel;
  • No primeiro contato com a mulher apresentar-se brevemente (quem somos, porque estamos aí);
  • Dependendo da condição em que a mulher se encontre, discernir prudentemente se deve ou não se aproximar;
  • Pedir licença à mulher: “Tem um minuto? ” “Posso entrega-lhe este informativo ou esta cartilha…? ”;
  • Não pedir informações à mulher a não ser que ela dê abertura ou liberdade para isso;
  • Olhar diretamente nos olhos, sorrir, manter a cordialidade em todo momento;
  • Anotar demandas e dados relevantes das mulheres que possam auxiliar em seu acompanhamento (Procurar lembrar o quarto e o nome de cada mulher);
  • Não levar muitos instrumentos distintos,
  • Procurar revezar as tarefas. Por exemplo: um pode conduzir mais as conversas e outro captar com atenção os detalhes
  • Ter um conhecimento básico dos serviços e encaminhamentos que o Projeto oferece e como podem ter acesso a eles;
  • A qualidade da visita é mais importante do que a quantidade de mulheres visitadas;
  • Se a visita produz alguma situação de cansaço, estresse, ou mal-estar nos agentes, é preferível suspende-la;
  • Estar atent@ a sua dupla de visitas no hotel, para que possa se evitar situações de constrangimentos e/ou riscos.

5.4 Recomendações depois da visita

  • Partilha das impressões da visita, desabafar frustrações (procure um lugar reservado);
  • Preencher o relatório com o máximo de informações obtidas;
  • Informações detalhadas a respeito de algumas situações que possam vir a ser relatadas pelas mulheres (violações de direitos humanos, problemática referida à saúde, segurança, etc.);
  • Os materiais utilizados (pastas, coletes, canetas, cadernetas, etc.), devem ser colocados no local onde foram retirados.
  1. Recomendações para acolhida

O espaço foi batizado “Cantinho da Paz” pelas mulheres por ser um local de descanso, acolhida relaxamento e capacitação profissional. Sendo um espaço alternativo à realidade que vivem cotidianamente.

Por isso é indispensável uma postura ética, compromissada, respeito e reserva diante das partilhas das mulheres. Não esqueça que a sua postura deve ser de um agente pastoral, ou seja, de escuta e acolhimento.

6.1 O voluntário também é responsável pela acolhida das mulheres que chegam no espaço

  • Seja disponível e atento ao espaço do Projeto, colaborando no que for possível;
  • Ser responsável em seu compromisso, dias e horários de projeto. Comunicar com antecedência prováveis ausências;
  • Ser ético; guardar sigilo do que escutar;
  • Acolher sem julgamento de valores, evitando posturas e falas preconceituosas;
  • Escuta atenta a mulher;
  • Não perguntar sobre a vida íntima das mulheres a fim de responder as curiosidades;
  • Não prometer e não trazer doações;
  • Acreditar na mulher como sujeito de sua própria história;
  • Considerar a realidade social e seu reflexo no contexto da prostituição;
  • Respeito à diversidade, e a história da mulher;
  • Evite conversar paralelas.
  • Preparação do momento de espiritualidade.

6.2  Na acolhida, são ofertados serviços como:

  • Encaminhamentos socioassistencias;
  • Cursos de capacitação profissionais;
  • Atendimento psicológico;
  • Atendimentos de práticas integrativas e complementares de saúde (auriculoterapia, acupuntura, massagens entre outros).

6.3  Cuidado com espaço

  • Procure manter o espaço limpo e organizado;
  • Pedimos que cuidem do banheiro (não jogue papel higiênico no chão, dê descarga, não urine na tampa do vaso);
  • Não é permitido ficar dentro da cozinha;
  • Horário de lanche é as 15h30m, após lanche jogue fora os descartáveis no lixo;
  • Após a realização de oficinas/cursos, gentileza guardar os objetos nos seus lugares;
  • Pedimos cuidado/respeito na comunicação (comentários sobre as mulheres ou hotéis).

Prostituição Feminina no Hipercentro de BH e Metodologia de Intervenção Oblata

No Curso Intervenção Social na Prostituição Feminina, ocorrido na tarde do dia 25/03/2019, Lucinete Santos (Assistente Social) apresentou a realidade de prostituição vivida por maios ou menos 3000 mil mulheres que exercem a prostituição em quase 30 hotéis do Hipercentro de BH.

Na oportunidade foi apresentada também a forma de atuação e metodologias de intervenção da Unidade Oblata Diálogos pela Liberdade – Rede Oblata – BH.

Segue os objetivos de intervenção do Diálogos pela Liberdade neste ano de 2019:

1- PROJETO DE APROXIMAÇÃO/ABORDAGEM

Objetivo: Conhecer a realidade das mulheres que exercem a prostituição mediante visitas a campo (busca ativa) divulgando informações sobre cuidado da saúde integral e sobre promoção da cidadania.

2 –  PROJETO MELHORANDO A QUALIDADE DE VIDA DAS MULHERES QUE EXERCEM A PROSTITUIÇÃO

Objetivo: Garantir o acesso aos serviços de saúde integral e socioassistenciais. Mulheres melhoram a saúde integral, o bem estar e a qualidade de vida.

3-  PROJETO DE ACOLHIDA

Objetivo: Promover o acolhimento, a melhoria da saúde integral, acesso aos serviços socioassistenciais e ao mercado de trabalho.

  • A acolhida é presença, e a presença é feita de atenção total.
  • A Acolhida é o grande diferencial nos Projetos da Rede Oblata.

4- . PROJETO DE SENSIBILIZAÇÃO SOCIAL E ADVOCACY

Objetivo: Ampliar o conhecimento público sobre a realidade das mulheres que exercem a prostituição e criar condições na busca do acesso e reconhecimento de direitos de cidadania.

É A UNIDADE OBLATA DIÁLOGOS PELA LIBERDADE NA LUTA PELA VIDA DIGNA DA MULHER QUE EXERCE A PROSTITUIÇÃO.

O que faz que uma mulher opte pelo exercício da prostituição mesmo sabendo que estará exposta ao constrangimento público?

Na tarde do dia 25/02/2019, Isabel Brandão (Psicóloga do DpL) palestrou no “Curso Intervenção Social na Prostituição Feminina e suas interfaces”,  com o tema:

PRECONCEITO, ESTIGMA E VULNERAÇÃO DE DIREITOS NA PROSTITUIÇÃO

Para abordar as questões relativas às violações de direitos na prostituição feminina e construção do estigma e discriminação que pesa sobre a mulher que exerce tal atividade, faz-se necessário dialogar com alguns construtos teóricos que nos permitirão contatar com as raízes deste complexo tema.

Em sua famosa música “Geni e o Zeppelin”, Chico Buarque nos leva a refletir sobre o que se pensa sobre a pessoa que está na prostituição: “de tudo que é nego torto, do mangue e do cais do porto ela já foi namorada…  Joga pedra na Geni! Joga bosta na Geni! Ela é feita pra apanhar! Ela é boa de cuspir! Ela dá pra qualquer um! Maldita Geni!”

Segundo o censo comum a prostituição é considerada como mal necessário e profissão mais antiga do mundo, dentre outras coisas. E embora seja recriminada, é tolerada com a conivência hipócrita da sociedade patriarcal.

Por que será que as pessoas que oferecem serviços sexuais são majoritariamente mulheres vindas de classes sociais desfavorecidas?

Historicamente os discursos religioso,  jurídico e  médico colaboraram para a construção de um ideal de identidade feminina que estabelece  padrões  de condutas que a mulher deve ter para que possa ter reconhecimento social. Tais discursos focam no casamento e na maternidade como destino natural da mulher, sendo que zelar pelo cuidado do lar e dos filhos é o que lhe permite ocupar o mundo de maneira prestigiosa: “bela, recatada e do lar.” A vida sexual está estreitamente ligada a vida afetiva.  Restrita a vida doméstica , a mulher terá dificuldades de acessar recursos financeiros  que lhe permitam autonomia econômica. Já para o homem é suficiente que tenha o papel de provedor, podendo se abster do compromisso de fidelidade matrimonial, sendo inclusive, recomendado que viole esta regra como sinal de sua condição de macho.

 O controle da sexualidade feminina está a serviço de uma ordem econômica capitalista, androcêntrica que determina que somente “os filhos do pai” terão direito ao seu nome e a sua herança. Os outros serão “filhos da Puta”, grande ofensa, motivo de constrangimento e vergonha.

Paralelo ao estereótipo de “mulher do lar” está o de “desviada”, a “mulher pública”, de “vida fácil”.

O que que faz que uma mulher opte pelo exercício da prostituição mesmo sabendo que estará exposta ao constrangimento público?

As pessoas escolhem seus caminhos a partir das janelas de oportunidades que lhes são abertas ao longo da vida. As histórias de vida relatadas pelas mulheres que atendemos na Unidade Oblata Diálogos pela Liberdade, demonstram que carências socioeconômicas e desigualdade de gênero, somada a violações de direitos fundamentais limitam o leque de escolhas. Em tempos de meritocracia as escolhas parecem serem determinadas por opções pessoais. Contudo, onde a justiça e a equidade social faltam, restringir as escolhas a questões pessoais mascara o conflito sócio-político que está por detrás destas escolhas. Nas palavras de uma de nossas assistidas: “fui o que deu para ser”.  Neste contexto, falamos em escolhas pré-escolhidas, em que a prostituição surge como opção laboral para as pessoas que foram excluídas das possibilidades de desenvolver um capital “sócio-cultural” que lhes permitam acesso a trabalhos com remunerações suficientes para viver com dignidade. Devemos considerar que em uma sociedade neoliberal que valoriza mais o “ter” que o “ser”, o  poder de compra tem grande valor simbólico. Consumir é uma forma de sair da invisibilidade e se liberar da humilhante identidade de excluído.

Ao encarar a prostituição como fonte de renda a mulher trás sonhos de uma vida melhor para si, seus filhos e sua família. Na dita “vida fácil”  ela enfrenta jornadas de trabalho exaustivas, situações de violência e desrespeito, exploração econômica por parte dos proxenetas, dentre outras situações que violam a sua dignidade. Porém, o que mais fere a mulher é a discriminação. Conforme ressalta Judith Buttler, “a obrigatoriedade de se adequar exige que certos tipos de identidade não possam existir”. Pela atividade que exerce ficará marcada para sempre com a identidade de “puta”. Todos os seus esforços para romper com a exclusão social anterior que a faz entrar na prostituição, esbarra na violência estrutural: “a existência e reprodução das desigualdades, exclusão social e moral e pela dominação de classe e gênero.” (Maria Cecília de Souza Minayo).

O estigma imposto pelo discurso cultural ganha força no auto estigma que é quando a mulher se vê com o olhar do outro e compactua com a ideia de “não vale nada, porque é puta.” Ferida em sua autoestima em seu sentimento de valia a mulher sentirá culpa e vergonha pela atividade que exerce se considerando, inclusive, merecedora das agressões que sofre. Isto favorece para que não se reconheça como sujeito de direitos.

Ainda que o Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) reconheça por meio da Classificação Brasileira de Ocupações (CBO – 5198-05) a profissão de prostituta, há um grande paradoxo nos territórios de exercício da prostituição.  Rufianismo é crime, se prostituir não é crime. Porém, quem determina os modos de funcionamentos dos espaços de prostituição sãos os proxenetas – os que detêm o poder econômico. Os espaços de exercício da prostituição estão à margem das leis vigentes sendo ordenados por suas próprias leis, se configurando como um “estado de exceção”, ou seja, “a suspensão do ordenamento jurídico é legitimada pelo próprio ordenamento jurídico que a suspende” (Giorgio Agamben).  Tal situação associada ao fato de a mulher procurar ocultar o que faz, favorece a clandestinidade, encobrindo as violações de direitos humanos e a exploração econômica que ocorrem nestes espaços.  

De fato a prostituição se transformou em um camaleão que se adapta a várias ideologias que convergem para dois pontos: a criminalização e a patologização dos sujeitos que a exercem.  Silenciados em suas estratégias para minimizar os danos que as desigualdades sociais causam tais sujeitos são revitimizados e novamente colocados à margem.

Enquanto sociedade somos convocados a “calçar os sapatos” destas pessoas e a refletir sobre esta realidade. Nas palavras de uma das mulheres que exerce a prostituição:

“Eles colocam todas as nossas qualidades de lado e julgam a exposição do ser humano. Porque está exposta ali não presta, não vale nada? O preconceito é o cárcere de nossos sonhos.” (anônimo – fragmento de relatos do Projeto Diálogos pela Liberdade)

Texto: Isabel Cristina Brandão Furtado – Psicóloga do Diálogos pela Liberdade – Unidade Oblata BH. 

MISSÃO OBLATA -“JESUS NUM HOTEL DE PROSTITUIÇÃO”.

No primeiro dia do curso “Intervenção Social na Prostituição e suas interfaces”, iniciamos o evento convidando @s participantes para visitar um hotel de prostituição, que foi reproduzido pela Equipe do Diálogos na sede, com o objetivo de mostrar um pouco a realidade vivida por mais de 3000 mil mulheres que exercem a prostituição nos hotéis do Hipercentro de Belo Horizonte.

As religiosas Oblatas Ir. Priscila Fernandes e Alejandra Mancebo conduziram o momento de espiritualidade com a frase de Jesus: “Vinde e Vede” (João 1, 38), apresentando o fundamento da Missão Oblata atualmente presente em 15 países, cujo carisma é trabalhar com mulheres que exercem a prostituição, denunciando toda forma de opressão, injustiça e morte, e anunciando a vida plena, e a alegria do evangelho, tão citada pelo Papa Francisco. “Nós mulheres, fomos todas criadas por Deus com direitos e dignidade de filhas muito amadas. Basta todo tipo de preconceito e discriminação!”.

Com a leitura do texto de Frei Gilvander – “Jesus num hotel de Prostituição”, as/os participantes foram convidadas a ver a atuação e a espiritualidade libertadora que move, através da força da Ruáh Divina, a missão do Instituto das Irmãs Oblatas do Santíssimo Redentor no Brasil e no mundo.

“Certa vez, Jesus reuniu os discípulos e as discípulas e disse: “Quando vocês forem anunciar a Boa Nova do Reino, não levem dinheiro nem comida, mas confiem no povo. Digam: o Reino chegou!Está chegando!”” e os discípulos assim foram.

Jesus também foi. Andou, andou.Estava começando a escurecer, quando chegou num dos “hotéis de alta rotatividade” da rua Guaicurus, no Centro de Belo Horizonte, região onde se concentra o maior número de mulheres que exercem a prostituição na capital mineira. Jesus viu prédios velhos e mal cuidados. Viu os quartos de alguns hotéis em péssimas condições, muito pequenos, e com pouca ventilação. Alguns não tinham sequer água encanada, em outros, apenas uma pia, ou um pequeno bidê e pia.

Jesus, manso e humilde, não viu apenas as condições físicas. Jesus viu centenas e centenas de mulheres que ali tentavam ganhar o pão de cada dia, quase todas mães, filhas pobres de famílias do interior e até de outros estados do Brasil. Jesus ouviu ali que certos saduceus, ricos piedosos, sem nunca ouvir as “mulheres da batalha”, as taxavam de promíscuas, de pecadoras e libertinas. Jesus ficou indignado com esse moralismo. Jesus viu o Deus da Vida, pai de infinito amor, presente nas mulheres prostituídas, pois encontrou muita humanidade no meio delas. Jesus viu que desde muito cedo aquelas jovens tiveram de buscar meio de promover o próprio sustento. Jesus viu nelas mães, que precisaram prover os próprios filhos desde a adolescência. Jesus viu que todas tinham no coração um grande sonho: melhorar de vida. “sonhamos com dias melhores”, Jesus ouviu isso de várias.

De mansinho, Jesus começou a dialogar com as mulheres da batalha. Perguntou: “Quais os motivos que levaram vocês a abraçar a prostituição como uma profissão?”Uma a uma, foram dizendo: falta de orientação familiar, falta de oportunidades, necessidade de luxo, ilusão, baixa escolaridade, falta de profissão, filhos para sustentar, dificuldades da vida, necessidade de comprar o amor da família…

Jesus viu as “mulheres da batalha” deviam almoçar correndo. Caso perdesse tempo, não conseguiriam pagar a diária no fim do dia. Enquanto almoçava com elas, Jesus arriscou perguntar: “O que causa medo em vocês?” Disseram : “Os homens violentos com seus desejos abusivos, o autoritarismo dos gerentes dos hotéis, o medo de não conseguir pagar a diária, a falta de chaves (quartos) para trabalhar, o hotel sem clientes, AIDS, drogas, a doença mental, a discriminação… Uma que não quis revelar o nome desabafou: “A maior tristeza da prostituta é a discriminação. Como você vai falar: sou prostituta?”

Jesus, com olhar penetrante e sentindo com o coração, percebeu que reinava ali um clima amistoso. Ele viu que a zona permite que a mulher encontre espaço para exercer um pequeno poder e para que o homem expresse sua fragilidade. Jesus ouviu lá: “Muitos vêm aqui para conversar e chorar; outros se tornam “clientes fixos” e estabelecem um pacto de ajuda mútua”. Jesus se comoveu ao ouvir de uma trabalhadora: “No dia que eu estava mal, as meninas vieram conversar comigo e eu acalmei. É pior ficar sozinha nessas horas”.

Jesus viu também como uma mulher mais experiente dava dicas a uma novata. Jesus viu que elas tinham fé e sentiam-se amadas por Deus. Jesus, quando menos se esperava, se viu rodeado por muitas mulheres. Ele espontaneamente acabou dizendo: “A Paz esteja com vocês. Meu Deus é o Deus de vocês. Ele é nosso Pai e nos ama infinitamente. Não pune e nem castiga ninguém, mas pede conversão e perdoa. Está sempre de braços e coração aberto para acolher todos os seus filhos e filhas. Não tenham medo! Deus está com vocês. Ama vocês”. Nesse momento uma delas falou: “Mas Jesus, aqui todo mundo conhece você. Você é muito amigo da gente. Sinta-se em casa no meio de nós!” EJesus desapareceu da presença delas. “Cadê Jesus que tava aqui?”, gritou uma. Outra respondeu: “Ele está dentro de nós. Está vivo em nós e no nosso meio”.

Aquelas mulheres, uma vez mais, fizeram uma profunda experiência de Deus. Aquele homem que esteve com elas, diferente de outros homens que costumam visitá-las, não veio para explorá-las, mas demonstrou profundo amor. Amor que entra no quarto de prostituição, que rompe todos os preconceitos e discriminação e toca a essência humana. Amor que anuncia a misericórdia e denuncia as injustiças. Aquelas mulheres sentiram-se profundamente amadas por este homem que liberta com sua capacidade de sentar ao lado e afagar a vida ferida de quem espera um gesto de amor e compreensão.

Ao chegar em casa, Jesus olhou para sua mamãe e disse: “Mãe, o Reino de Deus também está lá no meio das “mulheres da batalha!”. Mas fiquei indignado com os donos dos hotéis que ganham uma montanha de dinheiro submetendo as mulheres a situações degradantes. Vou enviar meus discípulos e discípulas para que revelem às meninas o amor de Deus e exijam dos patrões respeito e condições dignas para elas.

Agora entendo porque Jesus gostava de dizer: “As prostitutas vos precederão no Reino de Deus”.

PROJETO MELHORANDO A QUALIDADE DE VIDA DAS MULHERES EM HOTÉIS DO HIPERCENTRO DE BH

Com o Objetivo de garantir o acesso aos serviços de saúde integral e de direitos  socioassistenciais das mulheres que exercem a prostituição, a equipe do Diálogos pela Liberdade – Unidade Oblata BH, iniciou na última quarta-feira (13/02/2019) visitas a hotéis de prostituição da Rua Guaicurus e arredores, com atendimentos diversos às mulheres que lá batalham, dentre os quais:

  • Informações e orientações dos serviços de saúde integral e da rede sócioassistencial;
  • Massagem anti-estresse e relaxante;
  • Auriculoterapia;
  • Informações e orientações sobre os serviços realizados na sede do Diálogos pela Liberdade;

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  • Distribuição de materiais informativos;
  • Aferição de pressão arterial; roda de conversa sobre saúde preventiva e atendimentos personalizados (Profa. Dra. Eliana Aparecida Vila);

A Professora Eliana esclareceu dúvidas sobre o PrEP – Profilaxia Pré-Exposição ao HIV – método de prevenção à infecção pelo HIV; e sobre o PEP – Profilaxia Pós-Exposição ao HIV – é uma medida de prevenção à infecção pelo HIV que consiste no uso de medicação em até 72 horas após qualquer situação em que exista risco de contato com o HIV como na relação sexual desprotegida (sem o uso de camisinha ou com o rompimento da camisinha). 25 mulheres participaram da roda de conversa.

No total, 55 mulheres receberam atendimentos diversos nesta primeira ação do ano 2019.

É a Unidade Oblata Diálogos pela Liberdade, atuando dentro de hotéis de prostituição, com o objetivo de promover VIDA e DIGNIDADE das mulheres que exercem a prostituição no hipercentro de BH.

CURSO INTERVENÇÃO SOCIAL NA PROSTITUIÇÃO E SUAS INTERFACES – 25 e 26/02/2019

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A  INTERVENÇÃO SOCIAL NA PROSTITUIÇÃO e suas interfaces. Experiência de intervenção social do Projeto Oblata Diálogos pela Liberdade.

 O curso  pretende aprofundar desde diferentes perspectivas  a realidade da prostituição e as possibilidades de intervenção social que potencializem as mulheres na busca da efetivação de seus direitos e na construção de possibilidades diversas de enfrentamento aos desafios postos pela realidade.

Destinatários: Voluntários/as, candidatos a serem voluntários na nossa Entidade,  pessoas interessadas em conhecer a realidade da prostituição ou o trabalho de nosso unidade Oblata. Estudantes, profissionais e integrantes de associações e instituições que trabalham com temas de género e/ou especialmente em áreas de intervenção em prostituição.

Datas: 25 e 26 de fevereiro de 2019, das 13.30 às 17.00 h

Local : Sede da Unidade Oblata Diálogos pela Liberdade -Pastoral da Mulher – BH Av. Santos Dumont, 664 – sl 327 – Centro 30.111-040 Tel. (31) 3272-7349 (31) 8751-2848 Belo Horizonte/MG/Brasil.

Objetivos específicos

  •  Oferecer instrumentos teóricos sobre a realidade da prostituição.
  • Compreender  a prostituição num contexto amplo.
  • Oferecer ferramentas para promover os direitos das mulheres que exercem a prostituição e apoiar seu necessário protagonismo.

Temas abordados:

  • Os Projetos Oblatas e a missão de trabalhar na defesa dos direitos das mulheres que exercem a prostituição.
  • A prostituição feminina no centro de BH:

    o A indústria do sexo na cidade de BH; funcionamento dos hotéis de alta rotatividade

    o Perfil das mulheres que exercem a prostituição no hipercentro.

  • “As prostitutas são mulheres; os prostituidores são homens” : a prostituição desde um olhar de gênero.
  • Empoderamento e estigma
  • Prostituição e direitos humanos
  • A metodologia de intervenção desde os projetos oblatas:

    o   Abordagem

    o   Acolhida

    o   Formação integral focada na afirmação de cidadania e no protagonismo

    o   Sensibilização social / Advocacy

  • A promoção da saúde física e emocional das mulheres que exercem a prostituição.

Unidade Oblata Diálogos pela Liberdade Belo Horizonte

O Projeto Oblata Diálogos pela Liberdade (Pastoral da Mulher de BH) tem por finalidade contribuir para a promoção e defesa dos direitos humanos das mulheres que exercem a prostituição. O combate contra o preconceito histórico-cultural que existe em relação com a prostituição se configura como um dos desafios mais importantes que enfrenta nosso Projeto. Para essa finalidade atuamos em parceria com outras Entidades e com algumas das organizações de trabalhadores sexuais existentes.

INSCREVA-SE: https://www.sympla.com.br/intervencao-social-na-prostituicao-e-suas-interfaces__452459?d=